domingo, 25 de abril de 2010

Volta as aulas!


Deitada na cama olhei o relógio e percebi que havia acordado meia hora mais cedo, o que era muito estranho, e decidi tomar logo um banho, antes do meu irmão acordar e ocupar o banheiro.
Calmamente tomei meu banho, sequei os cabelos, vesti o uniforme e fui a primeira da familia a sentar para tomar café da manhã.
Ao chegarem a cozinha meus pais estranharam aquela pontualidade, claaaaaaaro, e eu ignorei a cara de espanto dos dois.


_Bom dia pai, bom dia mãe! _ Disse terminando de comer um pedaço de bolo e bebendo um suco rapidamente. _ Já estou saindo.

_ Mas que pressa é essa Cássia Maria? Você está no horário, não precisa correr.

Cassia Maria? arg, arg, arg mil vezes! Eu odeio esse nome, não sei como a minha mãe pôde fazer isso comigo! Me chamam de Morango desde que eu me entendo por gente (por causa dos meu cabelos ruivos e das minhas sardas) e eu nem tenho cara de Cássia Maria!

_ É Morango mãe! Mo-ran-go, entendeu? Cássia Maria é HORROROSO! E eu to indo agora porque vou passar na casa do Diego antes da escola.


Ela ficou parada, visivelmente aterrorizada pela crítica ao nome que ela me deu, mas Cássia Maria era mesmo um nome horroroso. Ignorei aquela reação pegando a mochila e abrindo a porta.


_ Beijo mãe, beijo pai! _ Foi a última coisa que eu disse já do lado de fora.


Cheguei bem rápido na casa do Di, que tinha voltado de viagem dois dias antes, e toquei a campainha.

_ MORANGOOO! _ ele gritou depois de me ver pela janela.

Acenei pra ele e depois ele desapareceu de vista, reaparecendo na porta já me dando um abraço de urso que eu fiz questão de retribuir. Era incrível como já fazia 2 meses que eu não via aquele garoto!

_ Ai garoto, que saudades! _ disse assim que ele me soltou.

_ Eu também Ruiva! Como você ta?

_ To bem, mas e você? Suas férias? E os shows? O fã-clube?

_ Vou pegar minhas coisas e te conto no caminho.

Não demorou muito ele estava do meu lado, me contando sobre as férias dele e caminhando comigo para a escola.

O Di era um tipo de tiete da Ivete. Fazia parte de um fã-clube e seguia a cantora durante as férias inteiras, que era o único período que ele tinha para acompanhar o grupo fanático por causa da escola. Ele era tão louco por ela que juntava dinheiro o ano inteiro só pra gastar em passagens, hospedagem, ingressos e abadás, mas em compensação tinha fotos com ela autografadas e o reconhecimento da cantora que já tinha até citado o nome dele num show e cantado parabéns pra ele num programa de rádio. Ele sempre chegava das férias cheio de novidades, de com quantas garotas ficou; de alguns shows da Ivete internacionais que rolavam pra ele ir; das cidades maravilhosas que ele mal conhecia por causa do pouco tempo que o fã-clube ficava hospedado, já que a cantora tinha uma agenda completamente lotada; de artistas que viu, conheceu e tirou fotos nos shows; dos pratos típicos que provou nos lugares por onde passou e de como tudo tinha valido muito a pena. Sempre achei que o Di tinha muita sorte por levar a vida assim, tão inconstante, por ele ser tão feliz.


Diego e eu conversamos tanto que nem reparamos estar na rua da escola. Reconhecemos de longe o palio prata da mãe da Ciça estacionado em frente a escola e começamos a andar mais rápido para falar com ela.


_ Ciça? _ Chamei batendo no vidro do carro.

Ela abriu a porta e me deu um abraço, depois Diego se juntou a nós.

_ Ciça, seu cabelo ta enorme, quase do tamanho do meu, caramba! _ Falei com as mãos no cabelo dela. _ É aplique?

_ Credo amiga! Você sabe que eu ODEIO falsificação... Isso aqui foi uma hidratação milagrosa do Rick, meu cabeleireiro. Ele é ótimo né?

_ Demais amiga! _ concordei.

_ E você hein Di? Curtiu muito as micaretas? _ Ciça se virou pro Di ao falar.

_ Sempre né loira. Ivete é minha musa, cês tão cansadas de saber... E as suas férias? E o sul? Eu achava que era impossível você ficar mais branca, mas você ta quase da cor da Morango...

_ HÁHÁ _ Ironizei.

_ Aaaah o Sul é perfeito. O nível é bem mais alto do que o daqui, os homens são mais bonitos, as pessoas são mais educadas...

Nesse momento ela desviou os olhos pro portão, e eu as vi, Beatrice e suas "seguidoras", cercadas de meninos, fazendo poses, dando risinhos falsos e entendi de quem a Ciça estava falando.

Era esse o mais impressionante da Ciça: ela era patricinha, fazia parte do grupo de lideres de torcida da escola, era popular, e odiava a Beatrice tanto quanto eu, não fazia o que ela queria, e preferia andar com o nosso grupo do que com os populares do colégio. Pra mim, ela tinha total chance de acabar com o reinado daquela perua e só não fazia isso porque não queria, afinal, a Ciça era perfeita pro cargo. Ela conseguia incomodar a Beatrice por não "obedece-la", mas jamais poderia ser tirada do grupo de lideres de torcida já que era tão boa ou melhor que a própria líder nas coreografias e além de tudo era comunicativa, linda, tinha classe e era humilde. Ela era uma grande ameaça para Beatrice, alguns já haviam enxergado isso, inclusive a própria Beatrice.


Me virei para Ciça

_ Entendo o que diz quando se refere ao nível alto do lugar.

Com a ceninha do portão, só reparamos Duda chegando de skate, quando ela estava só a uns dois metros atrás de nós.

_ Fala aê galera, beleza? _ ela disse sorrindo.

_ Dudaaaa! _ abraço coletivo na Duda _ Beleza sim e você? e o campeonato de ioiô?

_ Gente, eu ganhei o estadual!

_ Sério? Ta brincando...

_ Sério Ciça, vou pro nacional agora, eu nem acredito que consegui.

_ Que perfeito Duda! Estamos mega felizes por você.

_ Valeu Morango. _ Ela sorriu e apertou minha mão.


O estilo da Duda era beeeeem esquisito: Camisões de bandas, número GG (do tipo, "não olhem pros meus seios"), Calças largas, concerteza uns dois números maiores do que o número que ela veste ( do tipo, "desiste cara, eu não tenho bunda") e tênis... Ela NUNCA mudava isso. Nem na escola, nem no parque, nem na praia (onde ela tirou no máximo os tênis), nem nas festas do colégio, nem no casamento de sua mãe ( que nunca mais quis dar festas por causa disso), nem em nenhum outro lugar. Ela também não penteava os cabelos (que havia dois anos, tinha cortado bem curtinho, porque, segundo ela, atrapalhava ao fazer algumas coisas), não pintava as unhas e nem usava maquiagem... De costas, qualquer um podia jurar que era um menino. Ela adorava motos, skate, violão, joguinhos de computador, bonés, figurinhas e o ioio, desde que foi a um campeonato com os primos e descubriu que conseguia fazer com facilidade as manobras que viu lá... Na verdade, nenhum de nós entendíamos o porquê da Duda gostar tanto desses campeonatos com iôiô... Tanto eu, quanto o Di e principalmente a Ciça, achavamos isso super estranho, mas nós tínhamos que concordar que tudo na Duda era estranho (pelo menos pra uma menina), e que se nós a amavamos assim mesmo, era porque, pra nós, essas coisas não contavam em nada!


Ainda apertando as mãos da Duda, olhei meus três amigos parados ali, e percebi o quanto eu estava feliz por estar com eles outra vez...


Nessa hora Dona Gerusa apareceu no portão.

_ Daqui a um minuto ninguém mais entra _ Disse mau-humorada.



_ Nossa, esse humor dela não muda! _ comentei ainda olhando pra ela no portão.

_ Velha chata! _ Duda fez questão de falar alto, fazendo o resto de nós rir.

_ E então? Bora entrar galera?_ Diego lembrou _ Só temos 30, 29, 28, 27, 26...

_ É gente... Até por que, tem alguém aqui que não se aguenta de saudades de um tal menino chamado Pedro Paulo né?

_ Cala a boca, Ciça! Alguém pode ouvir!

_ Ta Morango, desculpa! _ e rindo, desviou os olhos de mim pro portão de entrada _ Vamos?

_ É... Bem vindos ao 3º ano galera! _ Eu disse... E Duda completou logo depois:

_ É... Bem vindos de volta ao hospício!




Então nós quatro nos olhamos desanimados e entramos na escola.




Por Fernanda Pereira Sodré.


























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